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Declaração de Belém marca nova fase do turismo sustentável

O turismo brasileiro chegou a um ponto sem volta. A Declaração de Belém para o Turismo Sustentável, assinada no início de 2026, marca o momento em que o setor organiza sua própria responsabilidade climática — mesmo diante de diretrizes europeias cada vez mais rigorosas e obrigações de relatórios de sustentabilidade para empresas de capital aberto, o movimento nasce da compreensão interna de que sustentabilidade sem dados é apenas discurso vazio.

A virada da agenda ESG no turismo brasileiro

Durante anos, o setor conviveu com falta de conhecimento técnico sobre práticas sustentáveis, com o entendimento de que ESG seria uma onda passageira, com a crença de que ações individuais não fariam diferença real. Faltava comprometimento estruturado e a percepção de que “não era comigo” predominava entre muitos profissionais e empresas do turismo. O greenwashing se tornou tão comum que começou a desgastar até iniciativas genuínas.A COP30, realizada em Belém entre 10 e 21 de novembro de 2025, trouxe mais de 60 mil visitantes e consolidou um novo patamar para o turismo no Brasil. Mas o impacto vai muito além dos números. A conferência evidenciou que o turismo sustentável se tornou eixo estratégico para promover desenvolvimento verde e reduzir desigualdades, deixando de ser tema paralelo para se tornar pilar econômico e climático.

A pressão por coerência climática e transparência cresceu exponencialmente. Empresas multinacionais passaram a exigir comprovação ESG em suas cadeias de fornecedores. Viajantes conscientes buscam hotéis com certificações verificáveis. Organizadores de eventos corporativos eliminam parceiros sem métricas rastreáveis. O mercado sinalizou: acabou o tempo das promessas não demonstráveis.

O legado da COP30 e o surgimento da Declaração de Belém

O Ministério do Turismo investiu R$ 4,7 milhões na modernização da sinalização turística de Belém e destinou R$ 322 milhões do Novo Fungetur a empreendimentos privados envolvidos na COP30. Embora sejam investimentos importantes, a realidade é que ainda há muito a ser feito — questões estruturais como saneamento básico em diversas áreas da cidade evidenciam que turismo sustentável exige articulação público-privada profunda e compromissos de longo prazo que vão além de eventos pontuais. Mas o legado mais relevante da conferência não está nas obras físicas — está na mudança de mentalidade que ela provocou.

A Declaração de Belém nasce exatamente desse contexto. Não é documento criado em gabinetes ou imposto verticalmente. É resposta organizada do próprio mercado à crescente cobrança por credibilidade, métricas e governança na agenda ESG. O movimento reúne entidades representativas de diferentes elos do setor: ABRACORP, AMPRO, ALAGEV, UNEDESTINOS, FOHB, BLTA, MPI Brasil, ABEOC Brasil, ABAV-SP, SINDEPAT, Visite Campinas e Academia Brasileira de Eventos e Turismo.

Esse alinhamento transversal demonstra maturidade setorial rara. Hotelaria, eventos, viagens corporativas, destinos, parques e atrações — toda a cadeia reconhecendo que a transformação precisa ser coletiva para ser efetiva. “Cansamos do ESG ornamental. A Declaração de Belém organiza o setor em torno do que interessa: evidência, rastreabilidade, melhoria contínua e responsabilidade pública. Não é sobre prometer: é sobre provar“, como afirma Hélio Brito Jr., fundador da ESG Pulse e articulador da iniciativa.

Por que o setor precisa de métricas, governança e integridade

A resposta está nos três vetores que movem qualquer transformação setorial: necessidade econômica, pressão de mercado e risco reputacional.

Do ponto de vista econômico, o turismo sustentável se consolida como ferramenta eficaz para gerar economia de baixo carbono, mantendo a floresta em pé e melhorando a vida da população. Não é altruísmo — é modelo de negócio viável em um mundo que precificou carbono e valoriza preservação.

A pressão de mercado se intensificou com marcos regulatórios concretos. A Diretiva Europeia de Relato de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) estabelece padrões obrigatórios de transparência ESG para empresas que operam na União Europeia, impactando diretamente cadeias globais de fornecimento — incluindo o setor de turismo brasileiro. Grandes marcas contratantes estabelecem cláusulas ESG como requisitos eliminatórios em processos de seleção. Plataformas de reservas de hotéis e viagens destacam empreendimentos certificados. Investidores institucionais direcionam capital para ativos com governança estruturada. Quem não comprova práticas sustentáveis fica progressivamente excluído de oportunidades.

O risco reputacional completou o quadro. Uma única denúncia de greenwashing viraliza em horas, destrói anos de construção de marca e afasta clientes que levaram tempo para conquistar. A integridade na comunicação ESG deixou de ser recomendação ética para se tornar proteção estratégica.

A Declaração de Belém endereça essas três frentes simultaneamente. Estabelece métricas comparáveis e alinháveis a referências reconhecidas internacionalmente. Cria diretrizes de comunicação responsável que evitam greenwashing e protegem tanto empresas quanto consumidores de alegações infundadas.

O papel das entidades e a força do compromisso coletivo

Movimentos setoriais fracassam quando dependem de poucas organizações ou quando carecem de representatividade. A Declaração de Belém evitou essas armadilhas desde a concepção.

As entidades co-signatárias representam a diversidade do ecossistema turístico brasileiro. Não é apenas hotelaria ou apenas eventos — é toda a cadeia assumindo compromisso público de integridade. Essa amplitude gera efeitos que vão muito além da sustentabilidade em si.

O movimento posiciona o Brasil de forma mais estratégica para negócios internacionais. Com métricas alinhadas a padrões globais, destinos e empreendimentos brasileiros ganham credibilidade para competir em mercados exigentes. Isso abre portas para eventos corporativos internacionais, viajantes de alto valor agregado e investimentos estrangeiros que buscam destinos com governança estruturada.

A profissionalização do setor se eleva. Quando toda a cadeia adota critérios comuns de gestão ESG, fornecedores se qualificam, processos se estruturam, colaboradores se capacitam. O padrão de entrega sobe, beneficiando não apenas sustentabilidade, mas a qualidade geral da experiência turística brasileira.

E esse movimento gera desenvolvimento econômico territorial. Hotéis que compram de produtores locais, eventos que contratam fornecedores regionais, destinos que desenvolvem comunidades — tudo isso movimenta economia, cria empregos, distribui renda. O turismo sustentável se torna vetor de transformação social e econômica.

Legitimidade porque nenhuma parte do setor fica de fora: ABRACORP (viagens corporativas), AMPRO (live marketing), ALAGEV (eventos e viagens corporativas), UNEDESTINOS (destinos/CVBs), FOHB (hotelaria), BLTA (luxo), MPI Brasil (profissionais de eventos), ABEOC Brasil (empresas de eventos), ABAV-SP (agências de viagens), SINDEPAT (parques e atrações), Visite Campinas (destino/CVB) e Academia Brasileira de Eventos e Turismo. Assim, a mensagem é clara: sustentabilidade é agenda de todos, não de nicho. Capacidade de mobilização porque cada entidade conecta suas bases, multiplicando alcance e engajamento. Poder de transformação porque compromissos coletivos criam padrões de mercado que iniciativas isoladas não conseguem estabelecer.

A ESG Pulse atua como Secretaria Executiva da Declaração, com papel técnico, institucional e independente. Não é protagonismo — é função operacional de coordenação, manutenção do Observatório, consolidação de dados agregados e produção de relatórios anuais. O movimento define governança leve, mas democrática, com Plenária Anual de signatários, Conselho Técnico para validação metodológica, Secretaria Técnica para execução operacional e Observatório de transparência agregada para consolidação de dados setoriais.

Esse modelo leve de governança evita burocracias permanentes, aproveita estruturas existentes das entidades e mantém foco em execução. A Declaração não cria hierarquias — cria mecanismos de cooperação voluntária onde cada participante contribui conforme possibilidades.

Da assinatura à implementação: o que muda na prática

Assinaturas solenes são importantes simbolicamente, mas transformação real acontece na fase seguinte: implementação. A Declaração de Belém foi estruturada exatamente para evitar que compromissos públicos virem gaveta.

O movimento opera com ciclos anuais documentados: Plano Anual define prioridades e ações, execução acontece ao longo do ano com acompanhamento técnico, Relatório Anual consolida avanços, limitações e aprendizados. Esse ritmo cria prestação de contas regular e permite ajustes baseados em evidências.

O Observatório funcionará como instrumento público de transparência agregada. Publicará indicadores macro sobre emissões, energia, água, resíduos, mobilidade, inclusão e governança — sempre com método, limitações e notas técnicas claras. Não publica dados brutos identificáveis nem informações comerciais sensíveis, respeitando LGPD e competitividade saudável.

As Diretrizes de Comunicação Responsável estabelecem padrão de integridade. Comunicações devem declarar escopo, indicar evidência, evitar alegações absolutas sem base e diferenciar participação de resultados comprovados. Essa régua protege o setor de práticas oportunistas que desgastam confiança pública.

Participar do movimento não equivale a certificação, selo ou aprovação ESG. Essa separação é fundamental. Signatários assumem compromisso de integridade e comunicação responsável. Contribuições de dados e ações setoriais ocorrem de maneira voluntária, conforme possibilidades de cada organização. Certificações específicas de empreendimentos seguem por instrumentos próprios, com metodologias e auditorias independentes.

Na prática, isso significa que um hotel pode ser signatário da Declaração e simultaneamente buscar certificação ESG Pulse ou qualquer outra reconhecida pelo mercado. São camadas complementares, não excludentes. O movimento organiza o setor, a certificação comprova o empreendimento individual.

Acompanhe os próximos passos

A Declaração de Belém marca início, não conclusão. Os próximos anos definirão se o turismo brasileiro consegue transformar compromissos em resultados mensuráveis e se posicionar como referência global em turismo responsável.

O debate setorial precisa de vozes múltiplas — gestores de destinos, empreendedores hoteleiros, organizadores de eventos, fornecedores, profissionais de sustentabilidade, pesquisadores, formadores de opinião. Quanto mais qualificado o diálogo, mais robustas as soluções.

Este é momento de escolha coletiva. Ou o turismo brasileiro entra definitivamente na era da ação climática com métricas, governança e responsabilidade pública, ou continuará sendo setor vulnerável em mundo que já mudou. A Declaração de Belém oferece o caminho estruturado. Cabe ao setor percorrê-lo com seriedade e consistência.

Acompanhe as atualizações do movimento em https://declaracaodebelem.tur.br/

ESG Pulse. Responsabilidade que gera valor.

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